O mandamento a que se refere este estudo aparece em Ex 21:1-11 e Dt 15:12-18. Começamos a análise por compreender essa instrução em seus detalhes.
Um dos curiosos mandamentos da Torah é este que trata dos escravos hebreus. Deus nunca desejou a escravidão, ainda menos entre seu povo. Porém, muitas leis foram dadas no sentido de regulamentar de forma mais justa algumas práticas humanas ainda existentes.
Antes de tudo, é importante pontuar que a condição de escravidão entre servos e senhores hebreus era completamente diferente da relação entre escravos hebreus e senhores estrangeiros (como no Egito, por exemplo). A Torah requeria tratamento humanizado para todos (estrangeiro ou hebreu) e, ainda mais, que o escravo fosse aceito como um membro da comunidade (Gn 17:12), tendo direito ao descanso no Shabat (Ex 23:12, Dt 5:14, 12:12). Se o dono praticasse atos de crueldade para com seu servo, este receberia de imediato sua liberdade (Ex 21:26-27). De fato, o escravo hebreu era basicamente um serviçal, um empregado da casa, que trocava seu trabalho por moradia e alimentação durante um tempo determinado. No hebraico, a denominação para ambas as palavras (servo e escravo), inclusive, é a mesma: eved.
O TEMPO DO ESCRAVO.
“Quando comprares um escravo hebreu, seis anos ele servirá; contudo, no sétimo ano sairá livre, sem pagar nada pela liberdade.” Ex 21:2
O paralelo aqui é bem claro e simples: ao homem foram dados seis dias para trabalhar; o sétimo é seu descanso. Essa é uma lei que vale tanto para o ser humano quanto para animais e até mesmo para a terra, que deve descansar do plantio à colheita, a cada 7 anos. (Ex 23:10-11, Lv 25:3-7).
A DECISÃO DO ESCRAVO.
“Mas se o escravo argumentar: ‘Eu amo a meu senhor, a minha mulher e a meus filhos, não desejo ficar livre “ Ex 21:5
Apesar de os servos hebreus terem garatinda a sua liberdade ao final desse período, eventualmente, poderiam desejar dar continuidade a essa relação, devido à estabilidade e bom tratamento que recebiam. Por vezes, acabavam ainda constituindo família com outra serva também comprada. Nesse caso, a mulher e os filhos continuariam pertencendo ao senhor e não ao marido/servo. Assim, se o escravo optasse por manter sua família em vez da liberdade sem ela, continuaria a trabalhar após os seis anos.
O PROCESSO PARA SE TORNAR UM SERVO VOLUNTÁRIO (de livre árbitrio).
...então, seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou aos umbrais, e o seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e o servirá para sempre (Ex.21.6).
Diante disso, se faria o seguinte: “o seu senhor o aproximará dos juízes, e o fará encostar-se à porta ou aos umbrais e lhe furará a orelha com uma sovela (ferramenta de perfuração), e ele se tornará seu servo/escravo para sempre.” Ex 21:6
INFORMAÇÕES PRECIOSAS.
1) O JULGAMENTO/AS TESTEMUNHAS.
Após o escravo deixar claro que ama seu senhor e deseja, por livre vontade, permanecer servindo-o, ele é levado para os juízes, a fim de que a sua sentença seja proclamada e cumprida.
2) O LOCAL DE PERFURAÇÃO.
A porta ou os umbrais. O senhor deveria levar seu servo à porta da casa para furá-lo. Isso não deve ser feito, por exemplo, sobre uma mesa ou mesmo um toco de árvore.
Há muitos detalhes que envolvem essa questão. Primeiramente, se o servo pudesse ser furado sobre uma mesa, uma cadeira ou mesmo um toco de árvore, ele precisaria ficar curvado ou abaixado, em uma posição de submissão em relação àquele que o fura. Porém, junto à porta, ele estará de pé, em uma posição digna e de igualdade perante seu senhor. O servo aceita a perfuração do seu corpo por amor, por desejo de continuar vivendo junto da mesma família. Dessa maneira, a sua escolha recebe o devido respeito e valor.
3) A SOVELA.
A pressão da sovela (perfurador) sobre o lóbulo da orelha também deixará uma marca sobre a porta. Possivelmente, até mesmo uma gota de sangue. Esse sinal ficará gravado para sempre, sendo um lembrete de que a vida do servo também passa a fazer parte daquela casa.
4) A PORTA.
A perfuração na porta/umbrais é muito significativa, pois estes elementos fazem parte da ESTRUTURA da casa, são sólidos e duradouros. Ao contrário, um móvel é apenas um objeto, livre de qualquer relação com a casa, podendo ser TROCADO a qualquer tempo. E, no outro extremo, um toco de árvore nada mais é daquilo que RESTOU do elemento principal – a árvore –, ficando do lado de fora da casa, afastado da família, sem grandes serventias. Todos esses aspectos, naturalmente, aludem à importância do servo e desse ato.
5) A PARTE DO CORPO.
A orelha. No aspecto natural/físico, é fácil compreender o por quê. O lóbulo da orelha é uma das poucas áreas “livres” no corpo humano que, se transpassada, não representa perigo para a saúde geral do organismo. Em uma leitura mais elevada, a orelha/ouvido é o órgão da audição. É por meio dele que o servo recebe as ordens de seu senhor. Assim, ao colocar essa marca sobre a orelha é como se o servo deixasse claro que seus ouvidos foram dedicados à voz de seu mestre, obedecendo-o em tudo o que lher for ordenado.
6) O RESULTADO DA AÇÃO.
Uma marca, uma perfuração permanente em um local visível, mostrando que esse servo ama seu senhor (e, eventualmente, a sua família constituída durante a servidão), não desejando viver afastado deles ou trocar sua vida por uma liberdade acompanhada das incertezas do mundo exterior.
Fonte: https://www.abelezadapalavra.com.br/post/o-servo-da-orelha-furada
Que sejamos tal como o servo de orelha furada, servindo ao nosso Senhor Jesus Cristo por amor e de forma voluntária.
Cristo sendo Senhor, tornou-se servo para nos resgatar da escravidão do pecado e nos fazer livres para servir a Deus.